A Diego o que é de Maradona!

 Por João Gregório Carmela

No dia 25 de novembro, sem ser comunicado pela imprensa ou mesmo pelos familiares, descobrimos o falecimento de quem escreveu e leu este texto. Outras mortes também foram constatadas, apesar do leitor e da leitora não terem notado. O padeiro, a feirante, a moça que vende lactobacilos pelas ruas, a caixa do açougue, a executiva do centro financeiro e muitos atores, atrizes e autoras da TV e da Internet, todos foram desta para a melhor ou pior (ninguém voltou para dar a resposta). E muito triste que não soubemos, mas os pais, os irmãos, os tios e tias e por fim os avós padeceram na quarta-feira, no vigésimo quinto dia de novembro do ano de 2020, todos  morreram juntos a  Diego Armando Maradona Franco. Todos nós tínhamos algo de “Diego” e Maradona teve defeitos e virtudes facilmente encontradas em qualquer um de nós.

As muitas faces de Diego Armando não eram diferentes das máscaras de Maradona. Nunca foram dois, não havia separação. Não há como ficarmos com a parte boa e expulsarmos a parte ruim de qualquer ser humano. Franco (o único nome e sobrenome não citado neste parágrafo) era gênio,  machista,  pai carinhoso,  homofóbico, também  frasista genial, contumaz tagarela,  político,  alienado, a quem você queria ter como amigo E, muitas vezes, paradoxalmente, elegê-lo como inimigo, enfim, um ser humano. Aliás, um exemplo de humanidade. Em frente à Casa Rosada para o velório, o argentino Andrés Quinteros definiu Maradona de forma clara ao meu entendimento “Ele (Maradona) é o gênio, ele é o povo, ele somos nós, a vida, o amor”.

Os ponteiros do relógio apontavam para o infinito, eram 12 horas. Procuro o celular, e não acho (depois vim saber que foi “furtado” pela companheira de vida). Tocou o telefone fixo, e eu estava no lugar de onde dificilmente saio, o panteão das obsessões. Atendo a ligação e era Diego, um colega de anos que logo após o alô justificava algum fato que não conseguia entender: “Primeiro de tudo, calma. Há muito tempo ele (quem?) vinha demonstrando uma frágil saúde devido aos excessos de uma sofrida, vivida e julgada vida”. E após me deixar nervoso com o preâmbulo na ligação, concluiu sem solavanco a frase que quase todos os jornalistas argentinos repetiram: “Eu nunca pensei que iria dar essa notícia enquanto estivesse vivo, MARADONA MORREU”.

Para chegar à catedral das neuroses, é necessário muitos anos e treinamento inconsciente, pouca autoestima e extrema arrogância, garanto; é preciso muito esforço para atingir esse nível. Atestada a insensatez de minha mente, voltamos à ligação telefônica. Fiquei atônito, sempre fui ardoroso fã de “DIOS”, mas estranhamente e vieram 3 pensamentos abilolados, vamos pela ordem:

1º .Pensamento - “Después de la tormenta viene la inundación”: não é possível que um amigo chamado Diego, me dê a notícia da morte de um ídolo homônimo, e diz que aos 34 anos nunca imaginaria contar sobre a morte de um homem de 60 anos.

2º.Pensamento - “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”: Maradona morreu no dia 25, 5 + 2 = 7 e as 12 horas, 1 +2 = 3, e somando 7 + 3 = “Diez” e devido ao coração, nada tão “maradoniano”.

3º.Pensamento: “Donde el diablo no pueda llegar, pon la cola”: o Diego que me deu a notícia (ficamos amigos devido ao Maradona) tem 34 anos, nasceu em 29 de junho às 3 horas da manhã. E novamente a conta obsessiva da idade, 3 + 4= 7 + 3, do horário do nascimento, completava o número mágico “Diez”. Mas 29, não é 10, é o dia, o mês e o ano que a Argentina de Diego, o Maradona, levantou a taça de bicampeã do mundo, em 1986.

O caro leitor e a cara leitora devem pensar: “Nossa, como você é místico!”. Pois, não sou. Eu não acredito em Deus, mas tenho medo dele, como disse um dia, Gabriel Garcia Marquez. Todo esse procedimento cabalístico, de coincidências sobre o Maradona, só fazemos com alguém querido, com quem desfrutamos a intimidade e apesar de não o conhecer, ninguém teve a vida mais exposta no esporte que o mais famoso Diego. 

O grau da intimidade era tão espantoso entre o craque e o público, por exemplo, na Argentina poucos usavam “Maradona”, o comum na imprensa e com o público é (e sempre será) Diego. Conhecemos os jogadores argentinos pelo sobrenome: Gabriel Batistuta, Lionel Messi, Cláudio Cannigia, Martin Palermo, Ubaldo Fillol, Carlos Tevez, Sérgio Aguero, Daniel Passarela, Carlos Bilardo, César Luís Menotti, Marcelo Bielsa, Alfredo Di Stefanno, Mário Kempes, Diego Simeone, Juan Sebastian Véron, Fernando Redondo e Juan Roman Riquelme. Mas somente um é chamado pelo primeiro nome: Diego Armando Maradona.

O ponto é que essa relação exigia explicações apenas de uma parte. A morte de Diego era tão clara e evidente que estava por vir e não iria demorar. Mas ninguém, nenhum pobre diabo quis enxergar o fatídico e inevitável dia. E agora há uma busca insana por um culpado, já foram acusados o médico, as filhas, as ex-mulheres, a enfermeira, a irmã, o psiquiatra e a cuidadora. O fato é que foram todos...nós. Matamos Diego quando precisou de ajuda e o julgamos, liquidamos Diego, quando foi preconceituoso, homofóbico e rimos; tiramos a sua privacidade ao ficar doente pelo vício na cocaína e o abandonamos Maradona ao receber a suspenção na Copa de 1994, pelo uso de efedrina. Não lhe demos o direito de defesa, não investigamos se usou o remédio ou foi lhe dado sem saber, apenas o trituramos moralmente. Diego Armando nunca pediu para ser exemplo, mas a figura pública diante de uma sociedade demagoga, não deu escolha ao único que deveria escolher se serviria de modelo.

Sim, “passarei o pano” para Maradona e “utilizarei o rodo” em qualquer caso que alguém for autêntico e prejudicar somente a si mesmo. Carrego a culpa de ter consumido a privacidade de Diego e de alguma forma ter uma parte da responsabilidade sobre sua morte. Para entender, compreender ou procurar um culpado para aliviar a consciência, na quinta-feira dia 26, resolvi ir caminhar, muito cedo, antes das 6h00 da manhã, era um transeunte a procura de uma explicação para o que era nitidamente já explicado.  

Andei, caminhei, marchei e percorri até ficar com dó de mim. Após duas horas vi a uma batina, quem a vestia era um homem com um protuberante nariz, de óculos com hastes longas de cor azul e aros na forma de circunferências e lentes grossas, sua altura era incômoda, impossível olhar para sua fronte sem inclinar o pescoço, uma branquitude quase albina que o fadava a sempre ser pálido e tão magérrimo que ao se movimentar, seus joelhos e cotovelos formavam um ângulo perfeito de 90º.  Não era uma referência que tinha para vigário. Como já confessei, sou ateu e fiquei observando para ver se alguém também o enxergava (vai que...né) e suspirei quando vi um casal beijando a mão do sacerdote e pedindo absolvição.

Dois idosos, brancos, cerca de 70 anos, a senhora tinha fartos cabelos loiros, com as raízes brancas, um pequenino nariz e narinas gigantes e largas (caberia um kibe em cada), sobrepeso aceitável, de salto alto, uma camiseta com a estampa escrita “sex, only for three” (sim, também fiquei surpreso) e uma calça caqui. Mas o que me incomodou era uma aspereza descomunal no cotovelo, cor marrom com bege e umas pintas brancas, um relevo de estranheza aos olhos nus. E eram nos dois cotovelos. O senhor era um padrão do conservador: “branquelo”, no máximo 1,65 mts de altura, barriga avantajada, carteira masculina com alça em forma de laço, de grande proporção compatível a uma lancheira, cabelos amealhados, testa desprorpocional a outras medidas do rosto, camisa regata por baixo de uma social aberta em dois botões de onde surgia um crucifixo prata, complementando a vestimenta, uma calça preta e um sapato, estilo 7-5-2 preto, engraxado, mas sem brilho. 

Após um literal beija mão do casal com o padre, a senhora disse: “O senhor viu os argentinos chamando aquele lá de “Deus”” e o marido em seguida falou: “É. Chamando aquele lá de Deus”.  O “cordeiro de Deus” a quem devemos retorcer o pescoço para enxergar a sua face olhou para o casal, um de cada vez, por uns trintas segundos e os “conjês” (como diria um certo ex-juiz e ministro) também contemplaram o “servo de Deus” pelo mesmo tempo. E eu com todos aqueles olhares, fiquei numa angústia danada e pensei na frase da camiseta da senhora (Sexo só se for a três) e fiquei espantado com a sordidez da minha mente e depois atravanquei naquela maldita articulação superior (também conhecida por cotovelo) rugoso de cores detratoras (adjetivo da moda) e nesta pandemia, muitas pessoas batem o cotovelo se cumprimentando, eu nunca bateria o meu naquele e ainda o “Trisal” se cumprimentou beijando a mão. Naquele momento, me senti mais omisso que  o ministro da saúde com aparência de tenente coronel húngaro e por segundos, não me manifestei para interromper o tortuoso entreolhares.

E finalmente o sacerdote respondeu: “É a graça de Deus se manifestando no homem, trazendo salvação a todos” - achei comovente. E continuou: “Maradona tem a mesma importância que o Pelé para os brasileiros. Ambos trouxeram a alegria muitas vezes, a quem somente podia sorrir graças ao futebol”. A mulher e o homem responderam em jogral. Primeiro a esposa: “Ah, padre, ele era um drogado e o moreno lá (Pelé), um canalha, não reconheceu a filha no leito da morte”, o esposo completou “é, um drogado e o moreno lá”.

O meu sangue ferveu a uma temperatura indescritível, mas esfriou rapidamente, pois o Padre fez jus aos seus “3,21 mts” e escavou o fosso da humilhação para o casal do “Sexo a três”: “Não é possível que nos dias de hoje, vocês ainda se manifestem desta maneira. Este racismo indecoroso, que moreno o que! Pelé é negro, um orgulho para o país e deveria ser para vocês também e o Maradona fez mal somente a ele. Deus deveria perdoar vocês, mas falta muito para mim, um servo dele, não ficar indignado com um comportamento deste”. Tudo isso num tom de voz aceitável, claro nas ideias. Ambos pediram desculpas e perdão ao eclesiástico dizendo que não tiveram a intenção. Aliás, a esposa respondeu e o marido, repetiu algumas palavras da mulher. 

A morte moral do casal me fez bem (Não vou para o céu) e continuei a caminhada, matutando sobre o que acabara de ouvir. Toda vez que algum cidadão elogia o Pelé, sempre tem outro(a) lembrando o caso da filha. “Que golaço o Rei fez na final da Copa de 70”, a resposta é automática “e a filha hein”, “Nossa que jogador foi o Pelé”, outro cidadão(ã) “e o caso da filha hein”, “O Pelé era um visionário, prometeu milésimo gol às crianças” e mais um desgraçado (a) emite o seu zurro “Mas não reconheceu a filha”.

Pois bem, vou contar um segredo a essas pessoas: Pelé é humano. Erra como qualquer um, pode ter errado na relação com a filha e errou em muitas outras coisas, mas enfrentou o racismo e passou por inúmeras dificuldades para atingir o ponto em que chegou. E se tivesse sido mais atuante em qualquer ponto na sociedade, seria permitido a ele alcançar o sucesso? Pelé foi aceito por ser negro ou por ser um homem extraordinário em determinada função? E quem somos nós, eu um pardo e os brancos, para determinar como um negro deve se comportar? 

Continuei a perambular e com o intento de tomar uma cachaça para desanuviar um sentimento de culpa incompreensível; avistei um boteco pouco higiênico, daqueles que antes de servir o café limpa o copo na água quente que esquenta a bebida no “bule”, sentei no banco do balcão, fui atendido de prima, desisti da pinga e pedi o cafezinho higienizado na água quente do “Bule”. Vejo chegar uma caminhonete na frente do bar, um cidadão, entre 40 e 45 anos, sem cabelos, de sapatênis, bermuda jeans, exageradamente corpulento; usava uma camisa polo que não chegava a cobrir o umbigo. Aliás, era uma saliência pré quadril larga, profunda, triangular (o primeiro que vi desta forma), caberia uma maçã tipo argentina e talvez duas ou três jabuticabas. Realmente impressionante. 

Desceu do veículo gritando apelidos impronunciáveis, adentrou no recinto com o seu pequeno-grande “Grand Canyon” abdominal e pediu um Bombeirinho (um coquetel de bebidas com cachaça, groselha e limão) na mesma água quente que foi higienizado o meu copo, foi o dele também. Virou de uma vez o seu drink, a rapidez do gole me fez imaginar que o seu mega umbigo começava a tomar vida e porventura enxerguei um corpo estranho saindo da saliência de sua pança; deveria ter entre um e três centímetros, de cor branca, não parecia sólido, talvez seria um pedaço de algodão. Fiquei imaginando qual seria o próximo objeto enigmático a sair daquele rasgo indeterminado do sujeito. 

Após beber de forma aviltante, assistiu, na TV do botequim, o apresentador dizer que morreu “DIOS” e nem o jornalista terminou de falar a palavra, ainda estava no “OS”, o “Homem-Umbigo” gritou: “Que Deus porra nenhuma, esse era um filho da puta drogado, vai ser comparado a Santo, a Jesus Cristo e a Deus? Esse bando de cuzão (jornalistas) é tudo “comunista” e os “vermelhinhos” são todos ateus”.  E um elemento sentado, de onde eu não podia avistá-lo aprovou a frase que acabara de ser dita com o complemento “é, comunista e ateu”. Levantei para ver o indivíduo que concordava com tamanha “abobrinha” e para a minha surpresa era o “Esposo” que beijou a mão do padre. 

Sim, estava pronto para me manifestar no bar, iria salvar o dia, mas não deu tempo. O dono do estabelecimento virou para o avantajado homem, que tinha o umbigo obsceno e disse: “Não deveria ter falado isso”. Em seguida, o “cirandeiro” bebedor de bombeirinho foi expulso a pontapés pelo sócio do botequim, que era argentino. E eu não pude ser o herói. A discussão se “Dios” é Maradona não teve sequência.  

Voltando para casa a pé, refleti sobre o concílio para virar Santo, era a polêmica colocada em questão pelo “mega-umbigo”. Em casa, pesquisando, encontrei um site (skepticsannotatedbible.com) que traz uma versão da Bíblia comentada pelo editor mórmon Steve Wells, que fez uma “competição” para saber quem matou mais: Deus x Diabo. O resultado encontrado por Steve é surpreendente: O Altíssimo, o herói do livro, matou 2.270.365 pessoas e o vilão, o Sete Peles, 10. Confesso que não conferi os números. Mas há coisas meio que inexplicáveis na Bíblia. Que pai (DEUS) é esse que faz o filho (Jesus) sofrer tanto? E por que Deus matou todos os primogênitos egípcios por causa da teimosia do Faraó, como contou o livro de Êxodo, capítulo 12, versículo 23? No livro de Reis II, no capítulo 23 e versículo 25, diz que o profeta Eliseu caminhava pela cidade Betel, quando encontrou algumas crianças, que começaram a caçoar da sua “Careca”. Chateado, o profeta Eliseu amaldiçoou os pequeninos em nome do Senhor, em seguida, duas ursas saíram do bosque e destroçaram 42 crianças. 

O que aconteceria comigo, que fiquei pasmo com o cotovelo de uma senhora e o umbigo do cidadão? Não estou fazendo chacota e sim perguntando como leigo, o que significa isso?

E por que Maradona não pode ser “DIOS”? Diego sempre teve uma vida sofrida, provações não faltaram, lutou como poucos contra as tentações, resgatou o orgulho de um povo, honrou pai e mãe, não matou ninguém e santificou todos os domingos. Cumpriu quase todos os mandamentos, mas se Deus, segundo Steve, matou duas milhões de pessoas, então Maradona está muito próximo de ser canonizado. 

Apesar de todo esse desabafo, a tristeza que bate é contínua. Sempre é mais um dia por vir, decepções e encontros que nunca quis terão que vir, e nas confusões de domingo, as lembranças de Diego sempre permanecerão na minha mente. Os meus olhos tomaram conta de sua genialidade jogando bola e na balbúrdia dos meus sentimentos, me excedi com todos, devido a sua humanidade tão desvairada e nua. Agora sigo a vida com o novo “normal”, que é a mesma coisa de antes, só que pior.  •

*Crédito das fotos - Redes Sociais de Diego Armando Maradona

Comentários