Dois Sócrates

 

Por Vinícius Mendes


Do primeiro Sócrates que conhecemos, o filósofo de Atenas, ao último, o médico e jogador de futebol de Belém do Pará, herda-se, na essência, uma mesma ideia: a de uma maneira de compreender a vida com e para os outros para além do que se costumou chamar, e reivindicar em tempos difíceis como os atuais, de democracia.

É do grego que o ocidente herdou o culto ao diálogo – e o tom negativo da persuasão. Ele se opôs aos sofistas – homens que perambulavam pelas cidades da Grécia ensinando crianças sobre o poder da retórica e da sua capacidade de mudar qualquer convenção – afirmando que o conhecimento, na verdade, é sempre autoconhecimento, que o saber nunca é exterior, apreendido pela palavra que convence, mas é uma luz que permanece dentro de cada um esperando apenas ser encontrada. 

A metáfora da luz não é à toa: se todos os seres humanos em todos os rincões da Terra nascem dispostos de virtude e de bem, eles não podem alcançá-los em sua totalidade sozinhos. Dependem de um movimento em que reconhecem a própria e absoluta ignorância – inclusive sobre si mesmos, como a psicanálise mostraria séculos depois – e, então, conseguem parir um conhecimento inerente  à sua condição, por meio do diálogo constante, da conversa que não cessa, da relação social.

É por isso que, em uma das conversas escritas posteriormente por Platão, um mestre (Sócrates) se coloca diante do seu aprendiz como um obstetra: “Na nossa arte, há a seguinte particularidade: que se pode averiguar por todo o meio se o pensamento do jovem vai dar à luz a algo de fantástico e falso, ou de genuíno e verdadeiro. Pois acontece também a mim como às parteiras: sou estéril de sabedoria; e o que muitos têm reprovado em mim, que interrogo os outros, e depois não respondo nada a respeito de nada por falta de sabedoria, na verdade pode me ser censurado. E é esta a causa: que Deus obriga-me a agir como um obstetra, porém veda-me de dar à luz”.

E continua: “é manifesto que eles nada aprenderam comigo, mas encontraram, por si mesmos, muitas e belas coisas que já possuíam. Confia então em mim, como filho de parteira e parteiro que sou; e as perguntas que eu te fizer, trata de responder da maneira que puderes”. 

Assim, o mestre não é o que aponta para o mundo e o apresenta tal como ele deve ser, mas o que sabe que, sendo cada um dono de um conhecimento universal, virtuoso e bom, tem apenas o papel de fazê-los chegar a ele. O filósofo Sócrates, assim, não é a pessoa que entendemos hoje – dona de um saber que se exterioriza –, mas é o animador, o provocador, o obstetra das ideias, um movimento que depende inevitavelmente dos outros, um diálogo impossível de se realizar consigo mesmo, porque só pode existir enquanto minimamente coletivo. 

Não é à toa que, filtrado por Platão, o diálogo se torna um sistema mais rigoroso de apreensão do mundo por meio da dialética. Um ato de interação em que cada afirmação é justificada pela anterior até que, enfim, se atinge a essência das coisas. Nesta filosofia grega, o indivíduo jamais se basta: os outros são parte inata do saber sobre qualquer coisa, são meio e fim, passagens necessárias para um conhecimento que existe antes em cada um.

E se se diz que Sócrates não era democrático, no sentido político do termo, é justamente porque não concordava com aquela democracia ateniense, em que apenas os mais ricos podiam participar das decisões políticas – uma democracia que conhecemos bem porque ainda vivemos nela.

É do médico e atleta brasileiro, da mesma forma, que o Brasil herdou um pouco mais do culto à democracia tal como a vemos – e o tom ridículo de qualquer autoridade burra. Ele se opôs aos militares – homens que tentaram impor os valores e a moral de uma minoria goela abaixo de todos os outros – encabeçando, no seu próprio meio de construir a vida, o futebol, um modelo democrático alternativo e possível, sem desatinar dela todos os seus problemas. Fez isso, aliás, em um momento crucial da história recente brasileira, cujo ambiente político só se se reviveu após os atos de Junho de 2013. 

Praticando um esporte essencialmente coletivo, Sócrates estendeu essa característica para além dos limites do campo. Sendo tão popular – e um entretenimento de massas, à época –, ele poderia usá-lo para além da maneira apaixonada com que nos relacionamos com o jogo: como mensagem política. O pressuposto era que o futebol é coletivo não apenas porque envolve times de 11 pessoas, mas porque é a síntese de um acontecimento em que atletas e torcedores dependem uns dos outros – como provam agora os clubes que, para manterem essa relação, chegam ao limite de colocar bonecos de papelão nas arquibancadas para simular essa presença.

A metáfora de dar à luz não é trivial também neste caso: por meio de um diálogo indireto, entre bola e atenção, jogador e o que ele pode dizer, gol e política, pessoa e pessoas, também é possível se chegar a uma essência, uma compreensão da vida para além do jogo, mas que dá sentido a ele. É possível fazer do futebol um diálogo sobre ele mesmo e sobre o que o circunda.

Para a maneira de Sócrates de compreender o futebol, o Corinthians era um clube ideal: por sua ligação, construída tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima, com as classes populares (assim como o são o Flamengo, o Paysandu, o Santa Cruz, o Atlético-MG e alguns outros times brasileiros). 

A postura era a mesma do Sócrates grego: não ensinar, mas parir ideias que já estavam lá. Em 1982, ele vestiu uma camiseta incentivando o voto para governador de São Paulo após anos de eleições indiretas. No ano seguinte, se revoltou com o Sindicato dos Jogadores de Futebol, que se recusou a apoiar uma greve geral organizada pelas centrais trabalhistas. Depois, em meio à campanha por eleições diretas para presidente – uma demanda que se tornava cada vez mais nacional no começo dos anos 1980 –, ele, ao lado de Casagrande, Wladimir, Zenon e do sociólogo e diretor do clube, Adílson Monteiro Alves, encamparam uma luta política que se manifestou em entrevistas, práticas, manifestações estéticas e essencialmente políticas. O Corinthians  entrou no Morumbi, em 1983, com uma faixa escrita: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. No ano seguinte, o placar eletrônico do Maracanã, então sob uso do Flamengo, exibiu o slogan Diretas Já! durante uma partida contra o Santos. 

É interessante que o pai de Sócrates admirasse, na verdade, Platão, o discípulo de Sócrates na juventude que, apesar de ter dado rigor à filosofia socrática, tem uma filosofia mais de rupturas do que permanências com o mestre. Em Belém, ao contrário de Atenas, Platão foi anterior a Sócrates, assim como, para nós, a “filosofia” socrática – isto é, o modelo que sempre esperamos de um jogador de futebol envolvido com seu povo – reina absoluta.•

Senhor Raimundo,

 o sábio protetor

Abaixo, na foto, Sócrates e os irmãos ainda muito jovens. O senhor Raimundo, pai dos garotos era um leitor contumaz  de livros sobre a filosofia. Após os 30 anos, o obstinado “Seo“ Raimundo completou três cursos universitários. 

Utilizou da sabedoria para batizar os filhos e virou a referência da família. E a propósito veja o significado do nome Raimundo: tem origem germânica  “Ragnemundus”, formado pela constituição dos vocábulos “ragin”, que traduzido seria  “conselho”, e “Mundus” que quer dizer “proteção” e junção dos dois -“sábio protetor”, “aquele que protege com seus conselhos”.


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