Ontem fez 12 anos! Entrevista com o Doutor Sócrates


 Por Ednilson Valia


“Ontem” entrevistei o ex- craque da Seleção Brasileira e do Corinthians, Dr. Sócrates; esta é a sensação que tenho ainda hoje, apesar da entrevista ter acontecido em 2008. Falar com o Doutor e ter aproveitado da sua imensa capacidade intelectual não é apenas uma referência para o jornalista,  e sim marca a trajetória do homem que o entrevistou.  Sócrates faleceu em 2011, deixando muitas saudades, ainda mais nos tempos em estamos vivendo, onde a sua lucidez faz falta.    Abaixo transcrevo o papo que tive com o melhor camisa número 8 que vi jogar.

  

Entrevista realizada em setembro de 2008

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, aos 54 anos, continua o mesmo questionador à época de jogador. O ex-craque dentro de campo se tornou um mestre nas palavras. Inteligente, culto e politizado consegue expor seus pensamentos com clareza e diz a revista Trivela(Setembro de 2008) que pretende lançar uma chapa com o ex-jogador Wladimir à presidência do Corinthians e até se arriscar na vida pública como Deputado Federal ou Senador.

Como você avalia a gestão de Ricardo Teixeira a frente da CBF?

Sócrates- Ganhar duas Copas do Mundo com a seleção brasileira em 20 anos é praticamente natural. O difícil seria vencer com o selecionado israelense. Nada contra Israel. É só um exemplo. Na verdade, os jogadores brasileiros têm muita qualidade. A “commodity” é muito boa. O futebol nacional, ou melhor o esporte distorceu seu caminho com a mudança da lei em 1988. O Corinthians deu um belo exemplo disto, aprovando eleições diretas e mudando seu estatuto. Até pouco tempo os dirigentes ficavam uma década no comando dos clubes. Temos que mudar a estrutura do esporte nacional. Não só da CBF.

Hoje, jogadores de futebol aceitam o primeiro convite para atuar no exterior e não importa o país, pode ser a Bielo-Rússia ou a  Ucrânia. E você recusou quatro propostas em 1984. Por quê?

Sócrates- Eu não queria. Em 1984, realmente eu recebi quatro convites: Inter de Milão, Napoli, Barcelona e um time francês,  acho que era o Racing. Não queria ir, aqui era a minha casa, o país passava por uma mudança democrática. Mas quando a emenda Dante de Oliveira( lei que permitiria a eleição do presidente da República pelo voto direto) não passou no congresso, ai eu inverti a lógica. Eu disse que não iria, só que depois daquela decepção eu iria para o primeiro time que aparecer. Por isso fechei com a Fiorentina.

Você foi um jogador com opiniões fortes, atualmente os atletas não te decepcionam pela alienação política e até para defender a própria classe. Um exemplo político foi o problema recente da entrada de brasileiros na Espanha. Apesar do Brasil ter muitos jogadores atuando no território espanhol, ninguém se manifestou. Estas atitudes não te decepcionaram?

Sócrates - Eles não tem noção que seja isso. Os atletas, na maioria não têm formação educacional e muitos não sabem que passam nos seus próprios contratos. Na verdade é que temos que educar estes (jogadores de futebol). A sociedade tem que exigir que eles sejam educados pois estes são referências para a população menos favorecida.

Após 26 anos, como você enxerga a Seleção de Telê Santana em  1982?

Sócrates- Aquela seleção era a cara do futebol brasileiro. Ainda, aquele time é referência no mundo inteiro. O sonho dos torcedores brasileiros era ver aquele futebol bem jogado. O resto é discutível. Até porque o que houve antes, pouca gente teve acesso.

Foi uma fatalidade perder para a Itália?

Sócrates Foi como “broxar” com uma mulher bonita e gostosa.(risos).

Depois da expulsão do presidente Alberto Dualib  e a eleição de Andrés Sanchez, como você enxerga  o momento atual do Corinthians? Parece que há algumas nuvens nebulosas  no Parque São Jorge?

Sócrates- Não é só o Corinthians, são todos. Mas o clube vai  mudar. Já deu exemplo mudando o estatuto, deixando o presidente ser eleito pelos votos dos associados. Está nova fase, eu chamo de “A Segunda Democracia Corintiana”. Pois a comunidade corintiana resolveu controlar as ações dos seus executivos. O Dualib e o Nesi Curi já caíram fora, logo sairá o Andrés. E gradualmente vai ter a mudança do modelo de gestão. E o relacionamento entre o associado e o seu executivo começará a mudar.

O Casagrande disse que quando parou de jogar futebol , entrou em depressão profunda e um “vazio” tomou conta dele e isso foi um dos motivos que o levou para o vício na cocaína. E para você, o que aconteceu quando encerrou a sua trajetória como atleta?

Sócrates O jogador não perde um emprego e sim uma profissão. Quando me separei da primeira mulher, eu voltei a jogar futebol, por instabilidade emocional, pois ali, era o  futebol, era onde eu me sentia seguro.

E por que não voltou ao Corinthians?

Sócrates - Eu quis, fui até a casa do presidente Vicente Matheus, mas ele não reiterou o convite, que havia feito antes por telefone. Ai, aceitei o convite do Santos.

Você já experimentou cocaína?

Sócrates Não. Eu tenho apenas três vícios: Mulher, cigarro e cerveja. Se eu arrumar outro vou ter que substituir por um destes.

Você é sócio remido do Corinthians, algum dia vai ser candidato a presidente do clube?

Sócrates Sim, gostaria de ser. Mas tenho apenas um mandato de conselheiro, preciso de dois. Mas estou articulando com o Wladimir uma chapa para a próxima eleição. E também quero falar com o Zé Maria, a respeito.

E a vida pública, não gostaria de ter tribunas oficiais para suas idéias?

Sócrates Realmente gostaria de expor meus pensamentos nas tribunas do congresso. Mas estou refletindo sobre o assunto, talvez eu possa sair candidato a senador ou a deputado federal.

Para fechar a entrevista, como você  vê o momento atual do país?

Sócrates  Conheci o Lula em 1979 e sem dúvida é um dos caras mais inteligentes que conheci. É um questionador e um bom ouvinte. Um exemplo disto são os seus conselheiros econômicos que vão de Delfim Neto ao Beluzzo  ( Luiz Gonzaga Beluzzo). Claro que muitas coisas que aconteceram no país, eu não concordo. Mas é nítido que o Brasil melhorou. Basta comparar as balanças comerciais dos três últimos governos.•


.

Comentários