Você não sabe o que é um Corinthians e Palmeiras!

Por Bruno Pavan 

Imagine que hoje, em 2020, Corinthians e Palmeiras resolvam realizar uma partida solidária, dessas que acontecem no final do ano entre amigos de Fulano contra conhecidos de Beltrano. Mas ao invés de doar para instituições de caridade, a renda fosse toda para o Movimento Unificador dos Trabalhadores, braço sindical do Partido Comunista Brasileiro(PCB).

Se em 2020, clubes e jogadores seriam “cancelados” nas redes, hashtags seriam publicadas por torcedores e editoriais de jornalões seriam publicados, em 1945 nada disso aconteceu.

Palmeiras e Corinthians jogaram naquele ano para arrecadar fundos para o MUT, que seriam utilizados para fortalecer a campanha eleitoral do PCB, na pleito que seria disputada em dezembro Milhares foram ao Pacaembu assistir a partida, que terminou 3 a 1 para o alviverde. 

A partida virou o livro: Palmeiras x Corinthians 1945 - O jogo vermelho (Ed. Unesp) escrito pelo ex-deputado federal e ex-ministro Aldo Rebelo e nele não há nenhum registro de que imprensa ou a sociedade da época tenha achado aquilo um absurdo ou um ataque contra a família tradicional brasileira, que com certeza era ainda mais conservadora na época.

O jornalista e historiador do Palmeiras Fernando Galuppo explica que na época era comum que clubes e associações se engajassem na reconstrução política do país e que o clima no pós-guerra ajudou nisso, mas que a partida não teve um caráter tão ideológico. 

“A motivação da partida foi um pedido dos próprios dirigentes do MUT, que solicitaram junto a Federação Paulista de Futebol, ao Corinthians e ao Palmeiras uma data para o evento esportivo, que tinha como patrono da iniciativa o presidente da Federação Paulista de Futebol, o Antonio Ezequiel Feliciano da Silva. A partida tinha um caráter mais beneficente que ideológica, segundo os registros da época. E vale lembrar que o Feliciano anos mais tarde se filiou ao PSD   (Partido Social Democrático) e  foi eleito deputado federal pela Arena, partidos notadamente de inclinações ideológicas de direita. O único interesse sobre a participação da Sociedade Esportiva Palmeiras nessa partida era o contexto esportivo e a ação filantrópica que existia quando da idealização da partida”, acredita. 

Já Fernando Wanner, historiador do Corinthians, aponta que o fato dos dois times terem uma ligação maior com a classe operária desde a sua fundação pode ter pesado na escolha dos rivais para a realização da partida. 

“Os dois clubes seguem o mesmo viés operário na sua origem, mas em dado momento eles se separam por conta da questão da colônia. Por mais que o Palmeiras fosse também um clube de operários, eles eram muito fechados na questão da colônia italiana e não gostavam do Corinthians por ter uma miscigenação maior”, diz.    

Mas o que era o Brasil e o mundo naquele ano de fim da II Guerra, onde a tríplice aliança havia derrotado Alemanha, Itália e Japão e o nazifascismo?      

Getúlio recebe a bola na direita


Para entender a complexidade da sociedade brasileira em 1945, precisamos voltar um pouco no tempo e tentar explicar a trajetória de uma das figuras políticas mais importantes do país: Getúlio Vargas. 

Trazendo para a linguagem boleira, pode-se dizer que Vargas era um daqueles coringas em campo. Batia com os dois pés, atuava desde a ponta direita até a meia esquerda e conseguia se movimentar bem para ocupar os espaços que a marcação deixava. 

Um exemplo disso são suas posturas no período antes da II Guerra Mundial, ainda na década de 1920. Benito Mussolini havia chegado ao poder na Itália em 1922, após a chamada Marcha sobre Roma. O Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) Rui Tavares Maluf lembra que a relação de Vargas com o fascismo italiano e, depois, com o nazismo alemão, era uma mistura de simpatia real com pragmatismo.  

“No primeiro momento há uma combinação de alguém que tem essa visão simpática e verdadeira e algo mais instrumental. Você via a Alemanha se reconstruindo com mais força com o Hitler e isso poderia significar condições que poderiam ser vantajosas pro Brasil. Se a gente olha já pro seu governo, há inegáveis simpatizantes do nazifascismo no primeiro escalão, mas há também todo um espaço para a figura do Oswaldo Aranha, que sempre foi defensor da democracia liberal e dos Estados Unidos. O governo Vargas nesse sentido é pragmático. No período entre 1936 e 1937, há um equilíbrio dessas pessoas no primeiro escalão do governo”, explicou.

É necessário também lembrar que nesse período a visão de grandes setores no Brasil dos governos de Mussolini e Hitler eram diferentes do que foram consagradas anos depois. Essa visão era capaz, inclusive, de mobilizar centenas de milhares de pessoas no Brasil, os chamados Integralistas. 

O pesquisador e autor do livro “O fascismo em camisas verdes” (FGV Editora) Odilon Caldeira Neto diz que, misturando a experiência do fascismo italiano com especificidades brasileiras, o integralismo nasceu como uma grande novidade na vida política do país em meados de década de 1930, sob a liderança de Plínio Salgado. 

“O cenário que o integralismo nasce é de rearticulação do campo político. A eleição de 1930 tinha acontecido e tinha uma classe emergente que queria se alocar no campo político, mas também existia uma aristocracia política que estava encastelada no poder. Nesse momento a revolução de 1930 estabelece algumas modificações no campo estrutural e político brasileiro e também traz novas ideias, foi isso que o Plínio Salgado conseguiu adaptar para a realidade brasileira com a experiência do fascismo histórico e o integralismo conseguiu penetrar na sociedade tanto que conseguiu se transformar numa tendência política de massas”, disse.

Já como presidente, Vargas se aproximou bastante da Ação Integralista Brasileira (AIB), que nasceu oficialmente em 1932, e de Salgado, que mudou de lado e passou a apoiar a revolução de 1930. Já em 1937, o líder integralista se lançou candidato a presidente no pleito que aconteceria no início do ano seguinte. Percebendo, porém, que a ideia de Vargas era seguir no poder e cancelar a eleição, tentou se aproximar ainda mais do presidente e dos militares, com a promessa de que ganharia o Ministério da Educação e Cultura o que garantiu a retirada de sua candidatura e o apoio dos camisas verdes ao Estado novo.

Acontece que isso foi mais uma jogada do Getúlio estrategista, que logo após chamar os Integralistas para o campo de ataque, os fazendo acreditar que teriam um espaço importante no novo governo, surpreendeu a todos com um rápido contra-ataque e colocou a AIB na clandestinidade em dezembro de 1937, um mês após o golpe do Estado Novo. 


Futebol, guerra e política se misturam


Entre 1939 e 1941 o Brasil se manteve neutro na guerra entre o Eixo e os Aliados. Principalmente após a rápida e fácil invasão da França pela Alemanha, onde ficava claro que o exército nazista tinha muito poder de fogo e que sua vitória naquele momento era até provável. Com o não envolvimento dos Estados Unidos no primeiro momento da guerra, a posição de neutralidade brasileira era natural.

Em 1942, porém, o muro não era mais um lugar para se permanecer e o Brasil declarou guerra contra Alemanha, Itália e Japão. E isso afetou diretamente o futebol na capital paulista. Com a lei de 11 de março do mesmo ano, que mandava confiscar os bens de estrangeiros do Eixo presentes no país, alguns clubes correram o risco de terem seus estádios confiscados.    

No lado alvinegro, o historiador Fernando Wanner apontou que, apesar da Espanha não participar oficialmente do Eixo, o General Franco, ditador do país, era bastante próximo das ideias fascistas. Por isso o presidente do Corinthians, o espanhol Manuel Correcher, teve que entregar o cargo para que o clube não perdesse o Estádio do Parque São Jorge.

Mas foi do lado alviverde o estrago foi quase fatal. O clube teve que mudar de nome, deixando de se chamar “Palestra Itália” por conta da menção ao nome do país inimigo na guerra. O jornalista e historiador do Palmeiras Fernando Galuppo destaca esse período como o de maior tensão para a comunidade ítalo-brasileira, quando ela era vista como uma inimiga do país e sofria pesado preconceito. 

“Foi criado um ambiente em torno do clube e seus símbolos, denominado vulgarmente como ‘Palestrafobia’, que fomentava a ideia distorcida de que era um clube ‘traidor dos ideários nacionalistas’ mesmo sendo um clube brasileiro em todas as suas as bases, estatutos e regulamentos. Exemplo prático disso foi a lei de 11 de março de 1942,  quando o Getúlio Vargas, decretou o confisco de bens e de direitos de estrangeiros do Eixo residentes no País, com o objetivo de ressarcir os danos materiais à Marinha Mercante, mas que, na prática, também serviu aos objetivos políticos da nova ideologia vigente”, afirmou.  

Esse momento história também serviu para que a rivalidade entre o Palestra e o São Paulo Futebol Clube se aflorasse ainda mais. “O Corinthians é rival, o São Paulo é inimigo”, disse o ex-goleiro do Palmeiras Oberdan Cattani no livro “Os Dez mais do Palmeiras”, do jornalista Mauro Betting. 

Conta a história que o São Paulo Futebol Clube foi um dos que mais pressionaram o governo para tomar a sede do Palestra Itália. Paulo Machado de Carvalho, dirigente são paulino e dono da Rádio Record na época, fez uma grande campanha contra o alviverde, que havia mudado seu nome para Palestra de São Paulo, vinculando a origem da palavra Palestra ao italiano. O Primeiro jogo da Sociedade Esportiva Palmeiras já com esse nome foi um clássico contra o São Paulo que definiu o título paulista de 1942, em que o time tricolor, perdendo por 3 a 1, abandonou o campo após a marcação de um pênalti para o Palmeiras.

      Getúlio leva a bola pra esquerda

O jogo de Getúlio sempre foi o do pragmatismo, e não o do futebol arte. Da mesma maneira que esteve de mãos dadas com os integralistas na década de 1930, a partir de 1945 começou a concentrar o jogo na esquerda, se aproximando dos comunistas para fazer uma tabela por ali. 

Os comunistas, juntamente com os trabalhistas, apoiaram o movimento “queremista”, que defendia a eleição de uma nova Assembleia Constituinte em 1946, mas com a continuidade de Vargas no governo. Esse apoio fez com que diversos quadros importantes do PCB deixassem o partido e acabou com mais um golpe, dessa vez dos militares contra Getúlio.  

O professor da pós-graduação em história econômica da Universidade de São Paulo e militante do PCB Antonio Carlos Mazzeo explica que nada havia de ideológico nesse apoio, mas que, como boa parte do PCB militava no PTB de Getúlio quando o partido estava na clandestinidade, Vargas encampou diversas pautas dos comunistas.

“As relações políticas não são pessoais, então, no final dos anos 40 e início dos 50, o Getúlio começou a abraçar muitas pautas dos comunistas: nacionalização do petróleo, das reservas do subsolo, do minério e a industrialização do país. Mas não era uma relação de amizade, era pragmática. Tanto que em 1947 o PCB já volta para a clandestinidade novamente”, reforçou. 

Maluf  também destaca essa espécie de trégua e que até mesmo o presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt entendia que a postura anticomunista de Vargas teria que ser refreada, até certo ponto. 

“O PCB também tenta se posicionar de uma forma pragmática porque como ele passa a maior parte da sua vida na clandestinidade, ele percebe que tem que se tirar força de vários outros espaços. Como também o próprio Roosevelt era um homem de grande visão, ele entende que é fundamental evitar que a URSS colapse, então de uma certa maneira ele percebe que o anticomunismo do Vargas precisa ser refreado”, disse. 

Após a II Guerra, mundo vivia um “momento cor de rosa”

Em 2 de setembro de 1945 a II Guerra Mundial teve um fim oficial e o mundo, agora, era oficialmente dividido entre as potências capitalistas Inglaterra, Estados Unidos e França, e a União Soviética comunista. O nazifascismo estava derrotado militarmente, com Mussolini enforcado em praça pública e Hitler suicidado. 

Por conta da participação decisiva do exército vermelho no confronto, o governo de Joseph Stalin estava com bastante moral pelo mundo, e isso não foi diferente no Brasil, o que fez o Partido Comunista do Brasil (PCB) voltar a legalidade.

Mazzeo explica que, por conta dessa situação e por inúmeros comunistas terem ido servir na Itália representando a FEB, não era possível para o governo deixar o partido na clandestinidade.

“O cenário na época era de otimismo porque os comunistas tinham tido papel muito importante na guerra, porque não só a URSS, que chegou primeiro em Berlim e colocou a bandeira lá em cima, mas comunistas na Itália, França e Iugoslávia também foram muito importantes nessa luta. Não tinha mais como manter o partido na ilegalidade, inclusive porque muitos militantes como Jacob Gorender e o Dinarco Reis foram combater o nazifascismo pela FEB”, apontou. 

Maluf reforça que após o mundo sair de uma guerra sangrenta e devastadora, havia um certo “momento cor de rosa” onde a guerra fria ainda não havia começado de fato, onde a sociedade pedia uma espécie de trégua. 

“Quando em 1944 já se percebe que mais ou menos dia os aliados vão vencer a guerra, já se tem um clima de distensão relativamente grande. Ainda que debaixo da ditadura do Estado Novo, mas esse clima começa a abrandar um pouco. Seja pelo âmbito dos comunistas, dos democratas liberais ou do próprio pragmatismo do Vargas, que sabia que com a derrota do nazifascismo sua própria ditadura estaria com os dias contados, o momento de 1945 é de uma certa alegria, um momento cor de rosa e de conciliação”, explicou.

A partir de 1947 começou a Guerra Fria e o tal momento de conciliação acabou. O Comunismo e a URSS se tornaram a causa de todo o mal. Após a vitória da revolução cubana, os EUA se apressou e tratou de impedir que houvesse uma nova Cuba no continente, patrocinando regimes que fugiam da democracia liberal clássica. 

Corinthians e Palmeiras seguiram como os grandes rivais que ainda são. Grandes decisões aconteceram, grandes filas, e grandes conquistas. Como disse certa vez o jogador e treinador escocês Bill Shankly(Foto): “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”.•    

*Frase do título da reportagem foi retirada do filme “Boleiros – Era Uma Vez o Futebol”, de 1998, dirigido por Ugo Giorgetti




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